Material da Polícia Federal cita Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, além de contratos ligados ao Banco Master.
O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, tornou públicos nesta terça-feira (1º) detalhes de uma investigação da Polícia Federal sobre a relação entre Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, e o também ministro do STF Alexandre de Moraes. Segundo o Bem Paraná, o material reúne mensagens, minutas de contratos e metadados obtidos no celular de Vorcaro.
Entre os documentos, há mensagens enviadas por Vorcaro a um interlocutor que, em parte dos trechos, a PF atribui diretamente a Moraes. Em outros, a investigação afirma apenas suspeitar que o ministro seria o destinatário. A extração recuperou conteúdos enviados por Vorcaro, mas não eventuais respostas, porque os dois usariam imagens de visualização única com textos escritos em outro aplicativo.
Os arquivos também tratam de um contrato de cerca de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. A investigação cita ainda uma segunda proposta, de R$ 50 milhões, que previa pagamento com cotas de um jatinho e de um helicóptero. O material registra, ainda, pedidos para que fossem acionados o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
A PF informa que os documentos não demonstram que os pedidos feitos por Vorcaro tenham sido atendidos.
Mensagens antes da prisão
As mensagens mostram que Vorcaro procurou Moraes repetidas vezes nos dias anteriores à própria prisão, ocorrida em 17 de novembro de 2025. No dia 14, perguntou se um encontro estava marcado para o dia seguinte. Em 15 de novembro, um sábado, pediu nova conversa e escreveu: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
No domingo, 16 de novembro, informou que estava em voo e que seguiria diretamente para encontrar o ministro após pousar. Também perguntou sobre o juiz responsável pelo caso, quis saber se o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, conhecia a situação e questionou se seria possível fazer algo.
Na tarde do dia em que foi detido, Vorcaro perguntou se o interlocutor havia conseguido notícias ou “bloquear” a medida. A PF afirma que ele enviou 12 capturas de tela relacionadas a encontros com Moraes nesse período, mas os documentos não esclarecem se todas as reuniões chegaram a ocorrer.
Vorcaro foi preso no Aeroporto Internacional de São Paulo quando se preparava para embarcar em um jato particular com destino a Malta. No mesmo dia, o Banco Central decidiu liquidar o Master, medida anunciada na manhã seguinte.
Citações a Gonet e ao chefe da PF
Em mensagens enviadas a um interlocutor que a PF suspeita ser Moraes, Vorcaro pediu que fossem acionados “Andrei e Paulo”. Segundo a investigação, as referências seriam a Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Em um dos trechos, ele afirma ser importante reforçar o pedido com os dois para impedir medida que prejudicasse o banco.
Em outra mensagem, solicita que Andrei fosse sensibilizado a adiar uma ação da PF para a semana seguinte, sob o argumento de que isso impediria a quebra do Master. Até o momento, não há indicação de que Andrei ou Gonet tenham realizado as intervenções solicitadas. Os dois não haviam se manifestado até a divulgação das informações.
O relatório também cita uma mensagem de 19 de março de 2025, na qual Vorcaro disse ao ex-diretor de Fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza que estava com Moraes e que o ministro “vai chamar o Paulo para dar um aperto”. Naquele momento, Vorcaro tentava vender 58% do Master ao BRB, operação que estava sob escrutínio do Ministério Público Federal, comandado por Gonet.
Encontros e contratos
Mensagens analisadas pela PF indicam ao menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro. O primeiro teria ocorrido em fevereiro de 2024, na casa do ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, que articulou as reuniões iniciais. Há ainda referências a encontros em julho e novembro de 2024 e em fevereiro, março e abril de 2025, além de menção a uma reunião durante um feriado em Campos do Jordão. O relatório não apresenta confirmação independente de todos esses encontros.
Sobre o contrato de cerca de R$ 131 milhões, a PF identificou, por meio dos metadados de um arquivo encontrado no celular de Vorcaro, que Moraes fez edições em uma minuta do acordo entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes antes da assinatura. O escritório afirmou que seu setor de compliance consultou Moraes, como marido da sócia-diretora, para verificar se havia impedimentos legais à contratação, como processos do banco sob relatoria do ministro.
O contrato vigorou de fevereiro de 2024 a novembro de 2025, quando o Master foi liquidado. Em março, ao comentar outro conjunto de mensagens atribuído a ele, Moraes afirmou que não havia recebido os conteúdos divulgados e classificou a associação de seu nome aos diálogos como uma “ilação mentirosa” destinada a atacar o Supremo. Até esta terça-feira, ele ainda não havia se manifestado sobre as novas informações.
A PF também localizou minutas de uma segunda proposta, no valor de R$ 50 milhões. Pelo documento, R$ 40 milhões seriam pagos com cotas de um avião Legacy 650 e de um helicóptero, e outros R$ 10 milhões cobririam despesas ligadas aos voos. O escritório de Viviane afirmou que a proposta não foi aceita, que nenhum segundo contrato foi assinado e que não houve substituição do acordo original.
O relatório ainda reúne mensagens sobre fóruns jurídicos em Londres com participação de Vorcaro. Em um deles, Moraes teria sugerido mudanças, aprovado textos e vetado convidados. Em outro, previsto para 2025 e depois cancelado, Pedro Gonet, filho do procurador-geral da República, pediu para participar com despesas pagas por Vorcaro, segundo a PF. O advogado Ciro Soares, ex-defensor do Master, atuou como intermediário. Ciro afirmou que o seminário seria aberto ao público e que não há ilegalidade em custear a participação de palestrantes e convidados. Gonet não se manifestou.
Com informações do Bem Paraná