A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou pela primeira vez a marca de US$ 40 trilhões — o dobro do registrado em 2017. Entre as causas apontadas estão a redução de impostos para os mais ricos, a inflação provocada pela guerra no Oriente Médio, que pressiona os combustíveis, e as tarifas de importação impostas pelo governo de Donald Trump. O ritmo de crescimento surpreendeu: o último US$ 1 trilhão foi acumulado em apenas cinco meses, quando o Escritório de Orçamento do Congresso (CBO) projetava que o patamar só seria atingido em 2027.
Pesam ainda no endividamento os gastos militares, próximos de US$ 1 trilhão, e as despesas com juros da dívida, que chegaram a US$ 1,1 trilhão — mais que o dobro dos US$ 419 bilhões consumidos em 2021. Em 18 de agosto, os juros dos títulos de 30 anos alcançaram 5,33%, o maior nível desde 2007. Analistas atribuem a alta à inflação e ao chamado risco Trump: a política externa e comercial agressiva da Casa Branca, como o conflito tarifário com o Canadá, gera incertezas que encarecem os títulos do Tesouro americano.
Economistas ouvidos pela reportagem descartam, porém, risco de insolvência. Para o professor Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Unicamp, o valor absoluto não indica calote, já que os Estados Unidos emitem a própria moeda e o dólar é a principal reserva monetária do mundo. Ele lembra que, em 2020, o Federal Reserve expandiu seu balanço em quase US$ 3 trilhões em três meses e que, entre 1942 e 1951, o país manteve os juros dos títulos longos travados em 2,5%. O Tesouro americano, aliás, anunciou que suas operações de compra de títulos vão dobrar, de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões, a partir de 9 de setembro.
O economista Pedro Faria, do Centro de Desenvolvimento e Planejamento Regional da UFMG, avalia que comparar o valor absoluto da dívida “não diz muita coisa”, já que as principais economias desenvolvidas operam em déficit desde 2008. Cerca de dois terços da dívida americana estão em mãos domésticas — US$ 4,5 trilhões no Federal Reserve e US$ 8 trilhões com o próprio governo —, enquanto o mercado detém US$ 32 trilhões, perto de 100% do PIB, patamar semelhante ao recorde de 106% registrado em 1946, no fim da Segunda Guerra Mundial. Para os especialistas, o único risco real seria um calote político, caso o Congresso se recusasse a elevar o teto da dívida.
Bastos observa que o problema fiscal americano está mais na arrecadação do que no gasto: a carga tributária dos Estados Unidos fica em torno de 25% do PIB, contra média de 34% na OCDE, e a receita do imposto sobre lucros caiu 23% no ano fiscal atual. O pacote de cortes de impostos aprovado em 2025 elevou a previsão de déficit em US$ 4,7 trilhões em dez anos, enquanto US$ 1 trilhão foi cortado da saúde pública no mesmo período. Os juros pagos pela dívida, acrescenta, beneficiam fundos, bancos e as famílias mais ricas — o 1% mais rico detém metade das ações do país.
Faria vê ainda uma tendência de governos, estados e empresas reduzirem a exposição aos títulos americanos, seja pela política “errática” da Casa Branca, seja pelo medo de sanções e congelamento de ativos — Brasil e China já diminuíram seus estoques. Ainda assim, o mercado segue comprando os papéis do Tesouro: a China reduziu sua carteira de US$ 1,3 trilhão, em 2013, para US$ 700 bilhões “e nada aconteceu”, diz Bastos. O dólar segue respondendo por 57% das reservas mundiais, contra 20% do euro e 2% do yuan, embora bancos centrais venham comprando ouro em ritmo recorde desde 2022.
Com informações de Agência Brasil.