Dívida bruta chega a 82,5% do PIB em julho

Relação entre dívida e PIB atingiu o maior nível em cinco anos, e economistas defendem um plano fiscal para conter gastos a partir de 2027.

Apólice da dívida pública da República dos Estados Unidos do Brasil de 1902 com detalhes ornamentais e inscrições oficiais
Apólice da dívida pública da República dos Estados Unidos do Brasil de 1902 com detalhes ornamentais e inscrições oficiais. Foto: Reprodução / Bem Paraná

Economistas citam juros altos, avanço dos gastos e ausência de plano detalhado de ajuste fiscal entre os presidenciáveis

A dívida bruta do Brasil chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto em julho, segundo o Bem Paraná com base em dados do Banco Central. Economistas ouvidos pela publicação apontam o indicador como um alerta para a condução das contas públicas no próximo governo, a partir de 2027.

De acordo com o economista-chefe da Warren Investimentos, Felipe Salto, o nível de endividamento, o maior em cinco anos, reflete as incertezas em torno da política fiscal. Em relação a junho, a dívida bruta avançou 0,6 ponto percentual, movimento associado aos juros altos e ao aumento dos gastos.

Para Salto, o cenário exige a apresentação de um plano de ajuste fiscal após as eleições. “O dado é um sinal de alerta para o governo e o Congresso. Passadas as eleições, será preciso apresentar um plano de ajuste fiscal coeso, que preserve as políticas públicas e o seu financiamento, mas corrija distorções e permita ao gasto crescer menos do que o PIB”, afirmou.

O economista também disse que não vê necessidade de uma correção radical e imediata. “Aliás, nem é viável politicamente. O essencial é ter um plano aprovado no Congresso com o condão de reorientar as expectativas, reduzir o risco e, assim, o custo do endividamento”, declarou.

O que mostra a relação dívida/PIB

A relação entre dívida e PIB é usada para comparar a situação financeira de países, ao indicar o tamanho da dívida em comparação com a economia. Quando o percentual é menor, a leitura é de maior capacidade de pagamento, o que tende a melhorar a confiança dos investidores e reduzir os juros cobrados.

No caso de percentuais mais elevados, a previsibilidade de pagamento diminui e os juros tendem a subir. O texto cita um estudo do Banco Mundial segundo o qual, em países emergentes, quando a relação dívida/PIB ultrapassa 64%, o potencial de crescimento fica menor. A partir desse patamar, cada 1 ponto percentual adicional de dívida reduz, em média, a atividade econômica em 0,02 ponto percentual.

Salto afirmou que um resultado primário positivo em cerca de 2% do PIB por dois a três anos seria suficiente para estabilizar a dívida. “Isso é fundamental para que se possa discutir o restante da agenda mais estrutural, inclusive a composição da dívida pública, o grau de indexação ainda elevado na economia, a questão da meta de inflação e outros fatores que determinam as taxas de juros”, disse.

Ele também relacionou o cenário fiscal à atividade econômica. “Do ponto de vista da atividade, os riscos estão associados à manutenção de um juro elevado por mais tempo. Isso em um contexto em que os efeitos da política monetária estão aparecendo nos dados de produção”, afirmou. Segundo Salto, as projeções de crescimento para o próximo ano já estão em torno de 1%.

Pressão sobre o próximo governo

Outro economista ouvido na reportagem, Gabriel Barros, economista-chefe da ARX, disse que o custo elevado de rolagem da dívida pública é consequência da situação fiscal. Para ele, a saída passa pela estabilização e, depois, pela redução da dívida com reequilíbrio das finanças públicas, principalmente pelo lado do gasto.

Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, afirmou que uma relação dívida/PIB acima de 80% pesa sobre a capacidade de pagamento do País. “A gente olha e não vê uma mudança de trajetória, parece que vai continuar se deteriorando. Esse é o grande problema. Mais do que o nível de endividamento, a preocupação é com a ausência da perspectiva de interrupção da trajetória de alta e o início de um declínio dessa relação”, declarou.

Segundo Agostini, qualquer que seja o vencedor da próxima eleição presidencial, será necessário adotar um pacote de ajuste fiscal. “Seja Lula, seja Bolsonaro, vai ser preciso adotar algum pacote de ajuste fiscal para ganhar algum fôlego para os anos seguintes, se não a situação vai ficar insustentável. Os prêmios de risco vão subir tanto que o desempenho da economia pode ser afetado e ir até para recessão”, disse.

A reportagem também informa que, apesar do tema, nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem o senador Flávio Bolsonaro, citados como os dois à frente nas pesquisas presidenciais, apresentaram até agora um plano detalhado de contenção de gastos para o próximo governo. Agostini ainda apontou desaceleração da atividade econômica, endividamento elevado das famílias e número significativo de empresas em recuperação judicial como fatores que compõem esse quadro.

Com informações do Bem Paraná