Levantamento do Ministério do Trabalho indica alta de 441% em dois anos e mostra que 42,5% dos vínculos formais desse grupo foram encerrados no ano passado
O número de trabalhadores que receberam auxílio por incapacidade temporária do INSS por ludopatia chegou a 363 em 2025, depois de registrar 67 casos em 2023. Segundo o Bem Paraná, com base em dados do Ministério do Trabalho, isso representa alta de 441% em dois anos, período marcado pela regulamentação das bets, em dezembro de 2023.
Em 2024, primeiro ano de vigência das regras para as casas de apostas, os afastamentos por vício em bets somaram 136, mais que o dobro do registrado no ano anterior. O estudo foi elaborado pela Subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho com informações do Ministério da Previdência Social e do Ministério do Trabalho.
O benefício é pago quando o segurado fica temporariamente incapaz de trabalhar por causa do vício em jogos e precisa se afastar para tratamento médico ou psiquiátrico. A confirmação depende de perícia médica oficial do INSS. A OMS (Organização Mundial da Saúde) classifica a ludopatia como transtorno mental.
Perfil dos beneficiários
O levantamento mostra que os homens são a maioria entre os beneficiários do auxílio ligado à ludopatia e correspondem a 7 em cada 10 casos. Por idade, quase 67% têm entre 30 e 49 anos.
Também houve avanço no número de desligamentos entre pessoas com ludopatia que já estavam temporariamente fora do trabalho para tratamento. A parcela de contratos formais encerrados nesse grupo subiu de 35% em 2023 para 42,5% em 2025. No ano passado, 4 em cada 10 beneficiários do auxílio por ludopatia deixaram o emprego formal.
Quase 70% desses desligamentos ocorreram a pedido dos trabalhadores ou sem justa causa. A autora do estudo, Paula Montagner, subsecretaria de Estatísticas e Estudos do Trabalho, afirmou que ainda não há base suficiente para concluir que o crescimento das demissões foi provocado pelo vício em jogos.
Em fala citada no estudo, ela afirmou: “A restrição aos jogos é uma medida que busca recuperar a saúde mental dos brasileiros, em especial dos trabalhadores que, na busca de alguma ajuda financeira, terminam endividados em proporções desesperadoras”.
O que o estudo aponta
De acordo com o levantamento, a legalização das apostas tem associação estreita com o avanço dos casos de ludopatia na população, embora ainda existam poucos estudos nacionais sobre essa comorbidade. Outro trecho do estudo traz a ressalva sobre o alcance dos dados: “Estes dados iniciais ainda precisam ser tomados com bastante cuidado, na medida em que representam grupos reduzidos que têm acesso a esse benefício. No entanto, ilustram os problemas associados à patologia do jogo que precisa ser combatida de forma bastante radical”.
As casas de apostas foram regulamentadas no fim de 2023, quando puderam ampliar a publicidade para atrair novos jogadores.
Proibição e mercado
As bets foram proibidas no Brasil em 25 de setembro deste ano, a nove dias do primeiro turno das eleições, como uma aposta para alavancar a popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição. Até a proibição, o governo havia vendido 85 outorgas a R$ 30 milhões cada, com autorização para explorar a atividade por cinco anos.
Como mostrou a Folha, 43,8 milhões de brasileiros já tinham apostado até o fim de agosto deste ano. A quantidade de jogadores ativos vinha em queda até a proibição, em razão de restrições já aplicadas a beneficiários de programas sociais e do programa Desenrola, contra o endividamento.
Em 2025, os brasileiros depositaram R$ 220,6 bilhões nas bets. Desse total, R$ 36,9 bilhões foram perdas dos apostadores e receita para as empresas. Levantamento feito pela Folha estima que o veto às apostas online pode liberar até cerca de R$ 40 bilhões por ano no orçamento das famílias, considerando a receita bruta anual das empresas autorizadas até então.
Procurado na segunda-feira (19), o IBJR (Instituto Brasileiro de Jogo Responsável) não respondeu ao pedido de manifestação da reportagem.
Com informações do Bem Paraná
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