Especialista aponta que 70% dos consumidores das plataformas são das classes C, D e E, que sofrem com crédito caro e preços altos
A chamada “taxa das blusinhas”, que tributa compras de até US$ 50 em sites internacionais, tem pouca relevância diante dos problemas estruturais que afetam o comércio brasileiro. Segundo a CNN Brasil, a avaliação é de José Faria Júnior, CEO da Wagner Investimentos, que considera a medida um fator secundário em comparação com endividamento, inflação de alimentos e juros elevados.
A comissão mista do Congresso Nacional iniciou a análise da Medida Provisória que extingue o tributo. O relatório está previsto para votação na próxima segunda-feira (31), às 16h. A cobrança foi criada para proteger o varejo nacional, mas Faria Júnior contesta sua eficácia.
“Para ter uma melhora efetiva aqui no comércio, aparentemente não”, afirmou o especialista. Ele reconhece que houve redução nas importações, mas não identificou crescimento correspondente nas vendas do varejo formal atribuível à taxação.
Impacto sobre trabalhadores informais
O especialista destacou que a medida atingiu duramente pessoas que dependiam das compras no exterior como fonte de renda complementar. “Isso de fato prejudicou muito esse tipo de comércio informal”, disse.
Cerca de 70% dos consumidores dessas plataformas pertencem às classes C, D e E. Essas famílias já convivem com orçamento apertado por causa da inflação de alimentos e do custo elevado do crédito. Mais de 10 milhões de pessoas pagam atualmente o rotativo do cartão de crédito, o que consome ainda mais a capacidade de consumo doméstico.
“Você junta uma renda apertada, com produtos essenciais subindo, com um imposto em taxa de blusinha, crédito caro, você tem aí um coquetel bastante ruim para consumo”, resumiu Faria Júnior.
Varejo tradicional perde terreno
Além dos fatores macroeconômicos, o setor enfrenta transformações estruturais aceleradas pela pandemia. O crescimento de plataformas como Amazon e Mercado Livre mudou os hábitos de consumo, com os brasileiros migrando cada vez mais para as compras online.
“Essa mudança de negócio muitas vezes não foi muito bem percebida por essas empresas”, avaliou o CEO. Ele citou casos como Marisa e Casas Bahia, que já enfrentavam dificuldades por modelos de negócio ultrapassados e problemas societários antes mesmo da discussão sobre tributação de importados.
“A taxa da blusinha perto disso não é tão relevante”, concluiu, apontando a capilaridade de distribuição das grandes plataformas digitais como fator decisivo para o futuro do varejo.
Com informações da CNN Brasil